FOTOAH"Rostos da cidade"
Há uma nova geração de políticos que emerge, preparando-se para o futuro. Ainda não a cerrar fileiras, pois o tempo não o exige, mas a dar-se a entender com sintomas de vitalidade contagiante. Apostamos nela, nessa nova geração, para a reciclagem de um País onde uma boa fatia política não passa de um pneu velho e incapaz de pisos exigentes. Falo de gente que cresceu em partidos políticos como o Partido Socialista e o Partido Social Democrata e de pessoas como António José Seguro e Pedro Passos Coelho (subtraindo nomes de menor ribalta). Omito propositadamente os não partidos, a saber: o Partido Comunista, que é menos do que um Partido Político e mais uma tradição – está para a política como a Festa dos Tabuleiros está para Tomar, ou a Senhora da Serra está para Rebordãos nos arredores de Bragança. Claro que o PCP – um baluarte digníssimo da resistência antifascista, hoje quase irreconhecível na sua forma de estar e de viver a Democracia - faz falta no mosaico do calendário das ideias, mas evoluiu tão pouco, mesmo tendo trocado o megafone pelo amplificador nos seus eventos, Festa do Avante à cabeça, que não conta nesta análise; depois, o CDS/PP, que evidentemente não é um partido, mas o parque de estacionamento narcísico de Paulo Portas, um feudo, uma empresa em nome individual, onde o conservadorismo se manifesta pelo apego ao poder, por uma demagogia atirada para bancas de feira e centros de dia - e pela incapacidade de legar; ou também o Bloco de Esquerda, puzzle curioso cujos tiques actuais são a contradição da sua própria origem, definição e natureza, comportando-se como mais um Partido ávido de autoridade e menos como uma frente (ou bloco) competente para congregar em acção propostas renovadoras ou mesmo, quem - sabe? - Revolucionárias. Aliás, o CDS/PP e o Bloco provaram nas últimas eleições que não passam dos parques de campismo dos eleitores em hora de protesto. Faço, porém, esta omissão com o maior respeito crítico pelos eleitores – o indivíduo escolhe o que escolhe porque sabe o que quer, e está disposto a pagar o preço, apesar de neste caso o preço ser muito alto: o País está numa instabilidade assustadora, com as oposições a procurarem pela chantagem e pela difamação, pelo facilitismo e pela demagogia, os resultados que, para sua amargura, não tiveram nas urnas. Falar dos novos políticos e das alternativas que se desejam é que me conduz ao verdadeiro raciocínio, à intenção do que aqui escrevo. As últimas notícias políticas são perniciosas e enchem os comentários. E mais do que os efeitos, penso nas causas ( “as causas” escreveu Paul Veyne, ”são os diversos episódios da intriga”). Porque falei dos novos, falo dos velhos, os que são notícia: Marcelo Rebelo de Sousa, Manuel Alegre e Cavaco Silva. Marcelo Rebelo de Sousa – o último pin vivo do Estado Novo que se equilibra na lapela da Democracia com uma dignidade louvável, tendo em cultura o que muitos emblemas não têm, evidentemente – sai da RTP, para voltar à TVI. Manuel Alegre, para muitos o bígamo mais famoso da política (pois tantas vezes parece amar avidamente a sua mulher e trair despudoradamente a sua amante) volta a candidatar-se à presidência da República. E Cavaco Silva, que foi Presidente por acaso e que depois do caso das escutas é um Presidente do acaso, estremece com a ideia. Marcelo sai da RTP, onde nunca devia ter entrado, pois a televisão pública devia fazer serviço público e não propaganda pessoal e partidária. Alegre volta a entrar na corrida presidencial, onde já esteve sem que o nosso Partido - infelizmente - soubesse ser Partido suficiente para apoiar os portugueses, permitindo a vitória do Professor Silva. Agora, Cavaco não sai de Belém, mas só por agora, não sejamos pessimistas. Marcelo irá usar esta transferência em seu proveito. E os que ainda o ouvem, cada vez em menor número, irão procurá-lo entre o Perfeito Coração e o Você na TV para reconhecer as suas escolhas. Cavaco nada dirá, mesmo que diga. E Alegre irá propor-nos a reflexão: será que quem votou nele há uns anos está na disposição de voltar a fazê-lo? Será o Partido que o viu nascer capaz de apoiá-lo na hora das escolhas? Será ele capaz de apoiar o partido que o viu nascer com as suas escolhas? Adia-se a hora dos novos e exige-se ponderar os velhos que nos surgem. Portugal paga o preço de uma população envelhecida. Eu, no que me toca, não estou para isso - portanto voltarei ao tema…



